Sumindo no Tempo – Capítulo II – O Velho

Eu estou preso.

Não me lembro como aconteceu direito. Numa hora, eu estava num bar na Espanha, em 1905, se não me engano. Então, um bando de médicos entrou correndo pela porta. Eles me enfiaram nessa camisa de força e me trouxeram para cá. Eu tentei resistir um pouco, mas só o suficiente para acharem que eu me importava. Mas eu não me importo. Isso já aconteceu comigo outras vezes. Muitas vezes. O problema de viajar no tempo é que você nunca está vestido de acordo, então quando se chega em Nova York nos anos 30 usando a roupa que você tinha acabado de comprar em São Francisco nos anos 70, você tem cerca de 5 minutos para conseguir se trocar para algo mais decente, antes que a polícia te prenda por atentado ao pudor.

Tem um velho na minha cela. Ele está me olhando estranho. Eu pergunto qual é o problema, e ele começa a gritar. E balançar pra frente e pra trás. Parece que me enfiaram numa cela bem pesada do manicômio. Olho em volta. Todas as paredes têm o mesmo estofamento branco, que dá a sensação de estarem forradas com colchões. O estofamento continua na porta, que não tem maçaneta do lado de dentro, ou uma janela. Então, a não ser que eu fique encarando-a diretamente desde a última vez que tenha sido aberta, não tenho como ter certeza de onde ela está. Tudo ao meu redor parece igual.

O velho continua gritando. Parece que os médicos não vão gostar disso. Ouço um deles bater no lugar onde a porta provavelmente está, e mandar nós dois calarmos a boca. Esse manicômio deve estar com falta de salas, porque é completamente insensato colocar um esquizofrênico e um suposto maluco que tem alucinações sobre viagens temporais na mesma sala trancada. Se não for falta de salas, então é porque a administração é horrível. Deve provavelmente ser isso. Se uma pessoa tem um talento pra administrador, duvido que queira comandar um hospício.

Não tem janelas aqui. Que horas deve ser agora? Provavelmente duas da manhã, embora meu senso de horário deva ser o menos confiável do mundo. Por mais que eu precise pensar no dia de um ano específico para poder me transportar para ele, eu não tenho controle da hora exata. É basicamente como um jogo de reflexo: eu começo a me movimentar pelo tempo, até sentir que estou perto do momento que quero. Quando eu sentir que cheguei perto o suficiente, eu paro. Simples, mas pode ser bastante falho.

O velho ainda está gritando. Ele está começando a me irritar. Sim, eu poderia ter me transportado pra longe daqui faz tempo. Na verdade, eu podia ter feito isso assim que fui preso. Mas minha curiosidade fala mais alto, como sempre. E o pior é que, eu não acho que seja uma boa idéia me transportar aqui dentro. Se esse velho me vir sumindo, ele vai ficar ainda mais louco do que já é. Não seria justo. Ele já sofre bastante com a doença dele, eu não devia fazer piorar. Não, é melhor eu esperar.

Os médicos estão começando a ficar nervosos. Deve ter uns três deles batendo na porta, mandando o velho ficar quieto. Ele me manda ficar quieto também, embora eu não esteja fazendo nenhum barulho. É melhor eu dar uma olhada em volta e ver se posso usar algo pra fugir.

Hummm, nada. Só mais paredes acolchoadas. Será que loucos que tenham claustrofobia são obrigados a ficar nessas celas apertadas? Se forem, eles provavelmente cometem suicídio em questão de dias. É impressionante o tipo de falhas que se encontra só olhando para uma sala vazia, branca e estofada.

O velho está gritando alto demais. Os médicos vão abrir a porta. É a minha chance. Hora de fugir desse inferno, ir para um lugar vazio e me transportar.

A porta abre.

Eu acerto o primeiro médico no nariz, dando uma cabeçada bem forte. Ele é jogado para trás, parece que quase quebrou o pescoço. Espero que não.

O segundo médico pula e tenta me imobilizar. Mas eu me jogo para o lado e dou uma rasteira nele. Ele cai no chão, eu me jogo em cima e dou uma cotovelada no seu peito, deixando-o inconsciente.

O terceiro médico é o que abriu a porta. Ele ainda nem tirou as mãos das chaves. Só está me olhando assustado. Eu tento chutá-lo, mas não é preciso. Aquele rosto pequeno e de óculos fica branco de medo, e o médico desmaia.

Ainda estou com a camisa de força. Que droga. Me viro para trás. O velho parou de gritar, e só está me olhando com os olhos arregalados.

-Pode fugir comigo, se quiser. Para longe daqui.

Ele não responde. Vai para um canto da sala e fica lá, encolhido, me encarando.

Eu suspiro. Espero com todas as minhas forças que ele melhore no futuro. Talvez eu possa me transportar e dar uma conferida. Sim, eu vou fazer isso. Pensando bem, talvez primeiro eu deva me transportar para uma época com roupas decentes, onde não me prendam se me virem com uma camisa de força pela rua. Será que existe uma época assim? Deve existir, a moda é uma coisa tão estranha.

Saio para o corredor, longe do velho. O alarme está tocando. Eu ouço passos e vozes. Tem mais médicos chegando, e esses devem estar acompanhados de seguranças armados. É melhor eu sair daqui, agora.

Eu me concentro.

Estou em uma cela, lutando contra três médicos assustados…

Estou em uma cela, com um velho gritando ao meu lado…

Um camburão, sendo levado para um hospício…

Um bar espanhol, que acaba de ser arrombado por médicos…

Uma campina. A mesma campina por onde eu cheguei.

Olho em volta. Tem pegadas no chão. As minhas pegadas. Eu já devo ter passado por aqui faz algum tempo, para ir para o bar.

Dou mais uma olhada em volta. Tem uma fazenda na distância. Eu me concentro e faço o tempo passar mais rápido. Em segundos (para mim, parecem segundos), eu estou lá.

Tem roupas limpas no varal. Não são lá muito novas, mas devem servir. Com um pouco de esforço, eu consigo arrancar a camisa de força usando o arame farpado da cerca, mas não sem antes me cortar todo. É melhor eu deixar uma carta agradecendo. Preciso de lápis e papel.

Volto para a campina. Eu tenho uma mochila, com dinheiro de várias épocas, alguns biscoitos e coisas básicas para sobrevivência. Ela sempre viaja no tempo comigo, e eu sempre a largo num canto quando chego numa época. Assim, eu não preciso carregá-la nas costas, e quando precisar dela, volto até o momento em que a larguei no chão e a pego.

Dessa vez não preciso voltar ao momento em que joguei a mochila no mato. Não tem ninguém por perto, então ninguém mexeu nela. Pego um pedaço de carvão e uma folha de papel amassado, e escrevo uma carta, dizendo que eu fugi do hospício, peguei as roupas e deixei algum dinheiro. E que nem adianta me procurarem, porque não vão me achar.

Coloco a carta e o dinheiro do lado do varal. Penso no velho de novo. O que será que vai acontecer com ele? Vale a pena eu olhar?

Eu me transporto e descubro o que aconteceu. O velho se matou no dia seguinte, durante um de seus ataques. Eu suspiro. Teria sido melhor não saber. O principal problema da espécie humana é que ela menospreza o benefício da dúvida.

Me transporto para fora daquela época, antes que algo pior aconteça. Espero que ao menos os médicos que eu ataquei estejam bem. Não, não vou olhar, é melhor deixar a dúvida rodar à minha volta pelo menos uma vez na vida.

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