Sherlock Holmes

O problema principal com filmes feitos a partir de livros é que todos sempre querem que o filme seja 100% fiel à história original. Caso contrário, os fãs dos livros começam a choramingar nos fóruns da internet, dizendo “Buááá, eles mudaram a história e o jeito dos personagens, eles são uns babacas, dêem uma olhada na minha fan-fic e vejam se minha história não merece muito mais virar roteiro de filme, buááá”. Bem, aí vai uma novidade pra vocês, fãs irredutíveis: um filme deve ser avaliado por suas próprias características e méritos, e não pelos méritos que ele deve adaptar. E é nesse espírito que se deve assistir ao novo filme do Sherlock Holmes.

O trailer do filme:

Finalmente um Holmes que não parece um aristocrata. De onde veio a idéia de que ele tem jeito de mauricinho?

Deixe eu me afastar por um momento dessa política de não comparar com o livro só para dizer uma coisa: independentemente do que os outros achem, na minha opinião o personagem de Robert Downey Jr. é a melhor adaptação da personalidade do Sherlock Holmes que eu já vi. Sim, é verdade que ele é mais aventureiro e fisicamente muito mais bem disposto do que o personagem original (além de ganhar alguns trocados como pugilista), mas ainda assim ele consegue ter aquele ar de quem sabe tudo, e está só esperando o momento oportuno para provar. Aquele ar de quem está raciocinando a uma velocidade acima da média humana, de quem consegue assimilar cada mero detalhe em um cenário para ver como ele se encaixa no todo, mesmo que só precise utilizar isso muito mais tarde. Basicamente, aquele jeito de ser incrível e saber disso.

O pugilismo é secundário, não leve isso muito em consideração.

E não é só o personagem que é bem retratado. Os arredores dele também são. Eu fiquei extremamente satisfeito quando vi o filme mostrar bem a relação de Holmes com sua empregada, como ela se revolta com os experimentos que ele fica fazendo em sua casa, colocando em risco a própria saúde e algumas vezes a estrutura do apartamento (como, digamos, quando ele fica atirando nas paredes, testando uma forma de fazer armas que não produzam som).

"Quer saber no que eu estou pensando, Watson? Pois eu não quero contar. Ha-ha!

E é claro que um bom filme de Sherlock Holmes não estaria completo sem uma boa representação de John Watson (por Jude Law). E eu tenho que dizer, essa é a primeira vez em que eu vi uma adaptação onde o Watson tinha uma personalidade e raciocínio próprios, em vez de só estar presente para concordar com tudo que Holmes diz, como se o Watson segurasse uma plaquinha onde está escrito (olha só esse cara aqui do meu lado, eu não entendo quase nada do que ele fala, mas acho que ele é demais, vocês não?). Além disso, o Watson do filme está em constantes brigas com Holmes, mostrando que nem tudo são flores no mundo da investigação criminal.

De qualquer forma, eu achei esse Watson um tanto magro e jovem demais, mas imagino que um cara de 50 anos gorducho não conseguiria fazer as cenas de luta.

Se tem uma coisa que desaponta no filme, é a história. A trama toda gira em torno de um vilão (Lorde Blackwood) que aparentemente tem poderes sobrenaturais, conseguindo sair do túmulo e assassinar seus inimigos usando magia negra. Naturalmente (pasmem) é tudo mentira, e não passa de truques de mágica bem elaborados.

"Gostaram do homem em chamas? Esperem até eu tirar um coelhinho da cartola!"

Mas basicamente, vilões fingindo ter poderes paranormais é mais um mistério do Scoby-Doo do que do Sherlock Holmes, então fica tudo um pouco deslocado. Mas para tentar fornecer um pouco de base segura, os roteiristas tentaram jogar tantos personagens dos livros quanto fosse possível, como o Inspetor Lestrade da Scotland Yard, que participa de várias histórias dos livros.

"OK, Holmes, diga logo qual é a solução do caso, para que eu possa divulgar ao público e levar todo o crédito."

Outro personagem do filme é Irene Adler, a criminosa de “Escândalo na Boêmia”, uma das muitas histórias curtas de Sherlock Holmes (afinal só houve quatro histórias longas). Infelizmente, os roteiristas acharam que o filme não estaria completo sem um romance controverso no meio da trama, então colocaram várias cenas onde ela e Holmes ficam se provocando, algo que hoje em dia é praticamente obrigatório em filmes de aventura. Por que isso? Por que um filme de aventura não pode ter só, sabe, aventura? Se vai ter romance, então tecnicamente não é mais aventura. É um gênero híbrido sem nome próprio.

"Sim, querido, eu sei que o romance é uma coisa ruim, mas tenho certeza de que podemos ignorar o máximo possível."

Além disso, existe outro romance no filme: o casamento de Watson com Mary Morstan (de “O Signo dos Quatro”), ao qual Holmes se opõe com todas as forças, o que acaba levando a algumas discussões cômicas entre ele e Watson durante o desenrolar da trama, parecendo mais uma briga de casal do que um desentendimento entre dois amigos. Sinceramente, se um deles gritasse “você me traiu, não quero nem saber de terapia de casal, quero o divórcio”, eu não me surpreenderia.

Basicamente eles só param de discutir quando têm que lutar com alguém.

Agora a parte realmente irritante. Lorde Blackwood não é um vilão famoso dos livros (ele nem existe nos livros, na verdade, foi feito exclusivamente para o filme), mas isso não é um problema em momento algum. O problema é que, na tentativa desesperada de inserir a possibilidade de uma continuação, os roteiristas inseriram o Professor Moriarty na história. O caso é que ele mal aparece. Se era pra colocar o cara na trama, que pelo menos ele tivesse alguma utildade, mas diabos, ele só aparece para dizer uma frase ou duas, claramente só está lá para que a continuação seja feita, é isso que é irritante. Ah, e existem alguns boatos que na continuação Moriarty será interpretado pelo Brad Pitt (não há como ter certeza, porque até o fechamento desta análise o diretor do filme se recusou a publicar quem fez a voz de Moriarty, e o rosto dele não aparece).

Uma coisa bem divertida em relação ao filme é a trilha sonora. Em vez de ter apenas trechos instrumentais épicos (tem muitos desses sim, mas não entremos nesse mérito da questão), há alguns pedaços com uma alegre música folk irlandesa, que criaram uma atmosfera bem interessante:

Então, basicamente, Sherlock Holmes é um ótimo filme, seja ele fiel ou não aos livros. Mas eu continuo defendendo a versão do Holmes do cinema como sendo absurdamente boa. Assista o filme e forme sua própria opinião.

Frase Final: Elementar, meu caro Wats… naaah, óbvio demais.

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