Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, baseado em um livro homônimo de Marçal Aquino, conta a história de um triângulo amoroso envolvendo Lavínia, uma mulher complexa com um passado ruim que está dividida entre seu amante Cauby, um fotógrafo, e seu marido Ernani, um pastor. Eu nunca li o livro, então minha opinião se estende apenas ao filme: ele não tem nenhum ritmo e é pretensioso.

O maior problema com o filme é que ele não tem a menor ideia do que quer ser. Existem três histórias paralelas tentando competir pelo mesmo espaço: Primeiro, um romance entre um homem e uma mulher, onde a mulher é perturbada psicologicamente por seu passado e pelo conflito das decisões que tem que tomar; segundo, uma crítica social à atitude governamental e das madeireiras em relação ao meio ambiente; e em terceiro, uma sequência de planos nonsense que querem ser artísticos, mas sem passar nenhuma mensagem verdadeira, o que os torna apenas pretensiosos e desnecessários. É possível dizer que esses planos são simbólicos, mas em momento algum é sugerido o que eles estão simbolizando.

Todas essas três histórias funcionam muito bem independentemente, e se cada uma fosse um filme próprio, pelo menos as duas primeiras seriam muito melhores. Mas do modo como está, o filme oscila esquizofrenicamente entre as três, criando uma bagunça que faz com que ele seja menos do que a soma de suas partes.

Em um aspecto técnico, o filme também tem altos e baixos extremos. A fotografia e a trilha sonora são excelentes. Um bom exemplo disso é a cena onde o amigo de Cauby, Vitor, está em uma piscina sem água declamando poemas. A câmera começa com um plongée de Vitor deitado no chão da piscina, mas depois gira noventa graus e dá a impressão de que Vitor está de pé e Cauby está sentado na parede, com a gravidade funcionando lateralmente. É uma boa ideia, com uma trilha sonora que combina com o estado de espírito drogado dos dois personagens.

Por outro lado, a edição é bipolar. Ocorrem fade-outs para preto, seguidos imediatamente de fade-ins para a cena seguinte. Não há nenhuma razão pela qual não poderia simplesmente ocorrer um corte normal de uma cena para a outra. Mas em outras partes do filme, os cortes normais ocorrem. É como se houvessem duas pessoas completamente diferentes, cada uma editando metade das cenas do filme.

Mas a parte mais contraditória de todas é a performance dos atores. Praticamente todos os atores desse filme são excelentes, sabendo dar emoção para suas falas. Isso faria o trabalho deles perfeito, se as falas em si não fossem, novamente, bipolares. Em alguns momentos, o tom das frases é completamente coloquial, e em outros, todos os personagens usam “tu”, “fazes”, e pronunciam cada letra pontuadamente, como se subitamente todos tivessem voltado um século no tempo. Houve momentos em que essa transição de um modo de falar para o outro oposto chegou a acontecer dentro da mesma fala dos personagens.

Além disso, o filme cria um monte de mistérios e subtramas que nunca vão a lugar nenhum. Toda aquela conversa sobre as madeireiras nunca é desenvolvida, e só é usada como um recurso para matar Ernani no terceiro ato. No começo do filme, Cauby tira fotos de presos, e mais tarde, ele cruza com um desses presos na rua. Depois disso, ele desaparece completamente do filme e nunca mais é mencionado. E é claro, existe o personagem de Chico Chagas, que vem de lugar nenhum, não faz nada na trama, não chega a lugar nenhum, e depois some do nada.

Esse filme tenta ser coisas opostas ao mesmo tempo. Ele quer ser um filme comercial, afinal existe uma trama interessante e com conflito no romance, e há atores e atrizes de peso como a Camila Pitanga no papel de Lavínia. Mas ele também quer ser um filme de arte, com todas as cenas nonsense do personagem de Vitor recitando poemas drogado, e as cenas de índios que não têm absolutamente nada a ver com elemento nenhum do resto do filme. E por último, ele quer ser um filme de conscientização, com a história das madeireiras que nunca é levada para frente. E por querer agradar todo mundo, o filme acabou sendo a mistura desengonçada que é. Só vale a pena pela história do romance e pelo flashback que conta o passado de Lavínia, mas para conseguir aproveitar essas partes é preciso lidar com um monte de coisas que, se cortadas fora, tornariam o filme muito melhor.

Frase Final: O livro talvez seja bom, mas o filme é muito fraco.

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