Análise – Magicka

Eu não entendo de onde saiu o trope em videogames de que magos precisam ser vistos de um ângulo sombrio e deprimente. Não sei quem começou, mas hoje em dia todos os jogos grandes de fantasia tem essa abordagem: Dragon Age, The Witcher… até Skyrim, que não tenta tanto assim passar a angústia, também retrata os magos como não confiáveis e desnecessariamente sérios. E saber ter um senso de humor é só uma das razões pela qual Magicka fica muito bem no meu conceito. Com as outras sendo, é claro, o combate interessante e revolucionário, e o quão divertido o jogo é para se jogar com amigos.

Magicka foi feito pelo desenvolvedor sueco Arrowhead Studios, e publicado pela Paradox Interactive, que já tem uma marca grande no mercado indie por jogos de estratégia. Na verdade, Magicka parece ser o único jogo publicado pela Paradox até hoje que não é de estratégia, e eles provavelmente escolheram bem ao resolver tomar o risco de inovar com esse, porque o produto final é bom. A história se passa em uma versão simplificada de um mundo clássico de fantasia medieval à la Dungeons & Dragons,  e conta sobre um grupo de estudantes de magia (ou de um só, caso você esteja jogando sozinho) que resolve salvar o mundo de um mago corrupto.

A trama não tem muita importância, especialmente porque ela é mais uma base para formar piadas do que qualquer outra coisa. O jogo é recheado de paródias e referências a filmes e jogos amados pela cultura geek, desde Star Wars, Indiana Jones e Drácula, até Grim Fandango, Castlevania, Lovecraft, e especialmente Monty Python. É bem claro que o jogo não se leva a sério só de ouvir o diálogo, que é um monte de sons sem nenhum sentido que soam como estrangeiros acham que sueco deve soar, basicamente seguindo o estilo do esquete Mr. Hilter do Monty Python, ou o discurso de Charles Chaplin em O Grande Ditador.

Mas a verdadeira estrela do jogo é o combate. Nunca antes o ato de se jogar como um mago foi tão bem adaptado na gameplay. Em vez de ter feitiços prontos e limitados apenas ao que os desenvolvedores pensaram na hora, você tem oito elementos mapeados aos botões Q W E R A S D F do teclado: Água, Vida, Escudo, Frio, Raio, Arcano, Terra e Fogo, respectivamente, e ainda é possível criar dois elementos extras, Vapor e Gelo, combinando Fogo e Água, ou Frio e Água. Cada elemento possui opostos (arcano é o oposto de vida, terra e água são o oposto de raio, etc), algo que se deve manter em mente tanto quando se está lançando um feitiço quanto quando você precisa de defender de um.

O jogador pode fazer uma combinação de até 5 elementos (podendo repetir qualquer um deles para aumentar a presença dele no feitiço final, e podendo até fazer com o feitiço seja simplesmente aquele elemento 5 vezes), e então pode escolher lançar o feitiço na sua frente em uma forma concentrada, lançar ao seu redor em uma forma mais esparsa, lançar na sua espada, machado, etc, para usar mais tarde, ou lançar em si mesmo. E o ambiente pode responder de acordo com vários feitiços. Os protagonistas não sabem nadar, mas se você quiser atravessar um rio, você pode  simplesmente usar um feitiço de frio na sua frente, e andar pelo lago congelado antes que o gelo derreta. Ou você pode ativar um mecanismo distante combinando raio e arcano, para conseguir fazer o raio cobrir longas distâncias.

E a quantidade de possibilidade é gigantesca. Metade da graça do jogo consiste em fazer combinações diferentes para descobrir o que cada uma faz, e quais são as mais eficientes para cada tipo de monstro. A outra metade da graça do jogo está em jogar multiplayer, porque é possível machucar seus amigos com os feitiços, mesmo sendo que todos vocês estão jogando a campanha em modo cooperativo. E nunca perde a graça ver três amigos combinando três raios arcanos (porque também é possível no modo multiplayer que os jogadores juntem seus feitiços para criar versões ainda mais poderosas deles) em um único raio arcano gigante, só para o quarto jogador fazer a burrada de jogar um raio de Vida (que é o oposto de Arcano) no meio do feitiço, criando uma explosão gigante e matando todos.

Felizmente, contanto que ainda haja um jogador vivo, não é necessário voltar até o último checkpoint, pois ele pode reviver seus amigos usando o outro elemento de magia do jogo, as Magicks, que são combinações especiais de elementos que, se o jogador escolher, podem realizar invocações e outras magias que não seriam possíveis somente com as combinações de elementos. Só existem algumas Magicks que são obrigatoriamente adquiridas pelos jogadores ao longo do jogo (com a mais importante sendo Ressuscitar, para poder evitar o retorno ao checkpoint que eu mencionei anteriormente), mas é altamente encorajado procurar os livros escondidos ao longo do jogo que contêm as outras, porque muito embora algumas não sejam lá muito eficientes (uma delas cria uma chuva de meteoros no mapa inteiro, e não há nenhuma garantia de que você não morra também), todas elas são interessantes e, assim como o resto do combate, podem ceder risadas caso você jogue com amigos.

E isso é um elemento importante. Este jogo tem um modo singleplayer, mas eu não recomendaria, porque a ausência de alguém para te ressuscitar toda vez que você faz uma burrada significa ver a tela de Game Over constantemente, e isso fica especialmente irritante mais para a frente, quando aparecem chefões que dão a impressão de terem sido criados com apenas o multiplayer em mente, porque derrotá-los sozinho é quase impossível.

Existem também cajados e armas alternativas para se encontrar, e cada um deles pode ceder abilidades novas para o mago que o usa. Você pode, por exemplo, ter o cajado de Gandalf, que possui a habilidade de lançar instantaneamente a Magick de Medo em todos os inimigos ao seu redor. Ou você pode dizer “dane-se” para a sua espada, e arranjar uma metralhadora M60. Não, eu não estou inventando.

Quando foi lançado, Magicka tinha uma série de bugs que em alguns casos deixaram o game quase injogável, mas agora já é mais de dois anos depois, o jogo já recebeu todos os patches que precisava, e também vieram várias expansões que colocam outras coisas interessantes, desde uma campanha passada na guerra do Vietnã que parodia jogos como Battlefield e Call of Duty, até uma campanha toda focada em Lovecraft, ou simplesmente DLCs que adicionam um modo Arena para jogadores lutarem entre si, e mapas com desafios, e novos cajados, armas e robes para os magos. A quantidade de conteúdo é alta, e rende um bom tempo de diversão com amigos. Eu definitivamente recomendo.

E hey, eles agora lançaram um novo jogo que tem as mesma mecânicas de feitiço, mas é um MOBA. Então se você gosta de DotA ou LoL, também tem algo aqui para você.

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Sobre diegolomac

O cara que fez o blog que você provavelmente está lendo agora.

Publicado em 16/11/2013, em Análises, Games e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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